Ação Noturna

(Luana Navarro e Arthur do Carmo) 

2010
Ação e registro em vídeo digital

Noturna

(Edith de Camargo)

Sobreviver à mais longa noite
Que se estende mais um dia
Que nos leva a um sono profundo
Que nos leva à primeira aurora
À primeira palavra
O primeiro silêncio carrega palavras
Jamais escutadas Jamais
Sobreviver à mais longa noite
Diluido no mundo e sentido por adiar o que nunca mais consegue falar.

Night Action

(Luana Navarro and Arthur do Carmo)

2010 Action and Digital video recording

 

Nocturne

(Edith de Camargo)

 

To survive the longest night

That extends one more day

Which leads us to a deep sleep

Which brings us to the first dawn

At first word

The first silence carries words

Never heard never

To survive the longest night

Diluted in the world and saddened for putting off what one can never speak again.

     Nossa última noite na Amazônia. Estamos no meio do que já foi uma floresta fechada e hoje é uma cidade onde os barcos chegam e partem todo dia o dia inteiro. Há por todos os espaços uma organização caótica, onde pouco se fala e pouco se escuta. O que se escuta muito são os famosos ritmos brega e tecnobrega. As mesmas músicas tocam por quase todos os lugares. As ruas possuem alto-falantes, os carros e os barcos são equipados com equipamentos de som, fora os players portáteis. Como se fossem necessários para ocupar o espaço de silêncio deixado pelo não-dito.

     A cidade não é tão povoada: um pouco mais de 100 mil habitantes, numa densidade demográfica de 1,62 habitantes por KM2. Itaituba já foi conhecida como cidade faroeste. Uma extração intensa de ouro fez o lugar ter o aeroporto mais movimentado do mundo na década de 70, com a média de 460 pousos e decolagens por dia. A maior parte desta riqueza do minério não permaneceu, entretanto, conta-se que cinco anos atrás ainda predominavam por algumas ruas uma relação de muita violência com cobrança de pedágio e desentendimentos políticos e sociais. As histórias de crimes passionais, pedofilia e acerto de contas são comuns e chegam a ser banais nas reportagens nos jornais diários.

     Imersos nesse ambiente, sendo constantemente observados, convivendo com esses espaços tomados pela música e pelo não-dito, fomos levados também nós à quietude, numa tentativa de escuta. Esse nosso silêncio nos levou a observar nós mesmos neste lugar. Nossa permanência durante esses dias começou a gerar uma necessidade de fala. Uma vontade de troca, de se colocar neste ambiente de forma autêntica, sem ser conivente com as relações autoritárias e seus jogos de poder diários. Procurar essa fala de uma maneira a ser ouvido sem perder a postura fez com que inseríssemos também nós uma música neste lugar. Um ritmo e uma fala na qual nos sentíssemos presentes.



Com ternura agradecemos a Edith por ter nos cedido a música para inserção na cidade.



Arthur do Carmo e Luana Navarro Itaituba/PA – 08/03/2010